sábado, 21 de novembro de 2015

A VIDA POR EXTENSO






Pode escrever. É bom para a memória e nos dá uma compreensão integral do sentido da palavra

Fui ao cartório para reconhecer firma em um documento. Percorri todas as etapas burocráticas e estava só esperando a liberação da papelada quando a funcionária me chamou para dizer que o jogo não tinha terminado. A assinatura não batia e eu teria de escrever direito até acertar. Tentei três vezes, tremi e errei em todas elas. Quando a moça me mostrou o original, registrado naquele mesmo cartório havia cinco anos, eu vi que agora minha letra era outra. Crise de identidade manuscrita detectada. Em casa, consultei anotações, listas de compras. Tudo contaminado pela displicência enigmática – e olha que eu escrevo à mão, a trabalho e a passeio, todos os dias. Estou sempre a rabiscar as entrelinhas mais apertadas dos meus pensamentos e outras desimportâncias fundamentais. Nos livros, uso lápis macio para sublinhar passagens e escrever nas margens. Um bloquinho novo geralmente começa no maior capricho. É uma promessa. Questão de pouco tempo, contudo, e vou convertendo os contornos bem definidos da caligrafia em traços abstratos. Um horizonte de dunas no deserto.


Escrever (do jeito que for) é o meu tipo de remédio tarja branca. E se um dia mandei por e-mail uma carta de amor urgente que mudou a minha vida (o mensageiro eletrônico nos fez desaprender a esperar), no outro redigi à mão, frente e verso e bem devagar, uma mensagem de despedida cheia de coisas que nunca consegui dizer pessoalmente. Nesse vaivém, era uma letra perfeitamente imperfeita que podia até não ser bonita, mas era boa. Se enfraqueceu, foi provavelmente no meu descuido, porque eu gasto muita energia digitando, abandonei a agenda de papel, parei de enviar cartas manuscritas e não cultivei diários físicos – muitos autores defendem que preencher da própria mão esses cadernos de anotar a vida, íntimos, confessionais e geralmente impublicáveis, nos fornece bastante combustível criativo, além de ser um manancial de temas para o autoconhecimento.


Cartas marcadas
“Um belo erro de ortografia revela verdades que a assepsia da tela branca do Word se esforça em ocultar”, escreveu há alguns anos Marcelo Coelho, colunista da Folha de S.Paulo, em um texto intitulado A Morte do Lápis e da Caneta. Na época, era 2011, algumas escolas dos Estados Unidos anunciavam que iam abolir do currículo a obrigatoriedade da escrita cursiva, priorizando a fluência em digitação. “Sou o primeiro a reclamar das inutilidades impostas aos alunos durante toda a vida escolar, mas o fim da escrita cursiva me deixa horrorizado. A máquina de calcular não eliminou a necessidade de se aprender, ao menos, a tabuada; não aceito que o teclado termine com a letra de mão. A questão vai além do seu aspecto meramente prático. A letra de uma pessoa é como o seu rosto.” Concordo. Ano passado, no artigo O Fim do Mundo Epistolar, Coelho disse: “Parece bastante seguro afirmar que acabou o tempo das cartas pessoais – aquelas manuscritas, com selo e envelope. É possível que, nos últimos dez anos, eu não tenha recebido mais de cinco, e escrito ainda menos do que isso. O e-mail eliminou inapelavelmente essa forma de comunicação, sem, no entanto, substituí-la por completo”. Na sequência, discorreu sobre livros que “celebram a beleza da comunicação postal”. Termino de reler esses dois escritos e penso em filmes que falam sobre as cartas e a conexão humana que elas ajudam a estabelecer. O primeiro é o tecnológico Her, um drama futurista. O protagonista Theodore, apaixonado por um sistema operacional, é um talentoso escritor – as pessoas pagam para que ele escreva cartas em seu lugar. Para tanto, abastecem o autor com todo tipo de informação e fotos que possam inspirá-lo a desenvolver uma intimidade instantânea com o destinatário. Um dos mais estranhos serviços de terceirização e disposição de sentimentos que eu já vi: o texto sai de uma impressora na letra do remetente. O segundo é o analógico Lunchbox. Na Índia, um homem e uma mulher se conhecem quando um mensageiro entrega a marmita do marido dela para ele, por engano. Eles passam a trocar mensagens no vaivém da caixa de comida e constroem na ponta do lápis uma intimidade extraordinária – intimidade esta que ela e o marido, um praticante de ausências, não alcançam. É uma das mais bonitas relações do tipo tão longe tão perto e nunca te vi, sempre te amei.
Envelope de carta manuscrita é feito bombom de chocolate que quer ser desembrulhado. “De fato há uma carga afetiva muito maior no escrever e no receber a carta que foi manuscrita”, diz Elvira Souza Lima, pesquisadora em desenvolvimento humano com formação em neurociência, psicologia, antropologia e música. “Escrever à mão ativa uma área de recompensa no cérebro e ajuda a fazer memória de longa duração, porque usa ferramentas de leitura e de busca para escrever a palavra, formar a sentença e dar um sentido a ela. Escrever é uma das coisas que mais mantêm a química da memória circulando no cérebro.”


Desenhar letras
Se há educadores que acreditam que o uso da escrita cursiva nas escolas é perda de tempo, me abismo em saber. E, quando se diz que ela já não tem razão de ser em um “mercado” que “demanda rapidez e raciocínio lógico”, abro a boca para bocejar. Tomar como fato consumado a superação do analógico pelo digital, a pretexto de ganhar tempo, parece ser o caminho mais rápido para empobrecer nosso repertório. A escrita cursiva, explica Elvira, é uma forma de desenho que ajuda no processo da leitura e carrega um componente muito forte de identidade. “Além de ser mais sofisticada, do ponto de vista antropológico, ela faz com que o cérebro se reorganize para ler e escrever com significado, promovendo os melhores resultados de formação de redes neuronais integradas das várias áreas do cérebro. Afastar a cursiva do aprendizado, priorizando a digitação, interfere negativamente no desenvolvimento infantil.” Crianças que desenham todos os dias, em atividades que estimulam as áreas do cérebro destinadas a escrever, chegam à cursiva naturalmente, sem gastar tempo extra, a partir dos 6 ou 7 anos. É uma evolução natural do brincar, do cantar e do desenhar. “No desenho, elas escrevem suas primeiras histórias”, conta Elvira.

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